Do caos da saúde no Brasil e da falta de dignidade
Publicado por Espoleta em 05/06/2009
A vida toda pagando plano de saúde. Só no recente plano, eram 8 anos de adesão.
Vai para o hospital receber a bolsa de sangue que não conseguiu por estar vomitando direto e ser internado. Vai em um bom hospital, PAGO, referência em câncer no estado, já que há 6 anos descobriu um câncer no rim. Fica no pronto socorro, num quarto junto com mais 4 pessoas, sem nenhum cuidado, e só com uma cadeira horrorosa para o acompanhante de cada doente. Segundo seu cunhado médico que fez residência no RJ : “Nem no hospital dos servidores (SUS) vi isso”.
Clamando por dignidade e de certa forma usando o fato de ser médico, seu cunhado conseguiu que a médica garantisse que a próxima vaga num quarto seria dele. Usando sempre a palavra DIGNIDADE. Depois que a filha assinou os papéis e demorou umas duas horas para a tal higienização do quarto, finalmente foi transferido para a enfermaria, um quarto para dois doentes, com um sofá cama e cadeira do papai para cada um dos dois.
A verdade é que no fundo o pessoal do hospital estava querendo mais que ele fosse logo embora morrer em casa. Afinal tornara-se um paciente terminal – ou na linguagem politicamente correta “paciente fora de possibilidades terapêuticas” .
Segundo o artigo entitulado “O paciente terminal: vale a pena investir no tratamento” de um médico e uma psicóloga do hospital Albert Einstein em SP:
Por definição, paciente terminal é aquele cuja condição é irreversível, independentemente de ser tratado ou não, e que apresenta uma alta probabilidadede morrer num período relativamente curto de tempo.
Se não há “cura” para que ficar com alguém que já se sabe que o tratamento é “fútil” ou, do inglês, “Medical Futility” ? (Futilidade porque parece que tornaram-se desumanos e insensíveis a dor alheia. Gastos para aliviar a dor alheia parece ser desperdício de dinheiro). Enfim, para que ficar com alguém que vai morrer de qualquer jeito mesmo? (Com coisa que nós também não vamos morrer um dia) Qual médico vai querer assumir um paciente que já foi desenganado por outro?
Parecia que ele estava melhorando mas foi piorando. Tinha comido batata frita, quibe, mas no outro dia colocou sonda para se alimentar. Parou de se alimentar pela boca. Já estava com uma sonda para urinar. O fígado e o rim estavam parando. Precisava de acompanhamento 24 hs. Se a glicose caía demais, glicose na veia. Se aumentava demais, insulina na veia. Os dedos todos furados de tanto exame de glicose. Tomou soro pela veia. Já nem tinha mais veia no dia que entrou em coma (5º dia) para tomar glicose.
No artigo ”DISTANÁSIA: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A MORTE E O MORRER COM SOFRIMENTO ” de Sávio Roberto Moreira Gomes, encontramos três definiçõs importantes:
“Distanásia” significa dis (má)+ thanasia (morte). Na definição do Novo Dicionário Aurélio, “morte lenta, ansiosa e com muito sofrimento”.
“Eutanásia” (do grego ευθανασία – ευ “bom”, θάνατος “morte”) é a prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo incurável de maneira controlada e assistida.
“Ortotanásia”, cuja expressão utilizada pelos médicos significa “morte natural sem interferência da ciência, permitindo ao paciente morte digna, sem sofrimento, deixando a evolução e percurso da doença”. Neste caso, o que se evita é a aplicação de métodos extraordinários, sem tratamento desproporcionado e sem abreviação do processo do morrer em pacientes irrecuperáveis e que já foram submetidos a Suporte Avançado de Vida.
Se o paciente terminal, meu pai, fosse para casa, com certeza teria uma distanásia. Sentiria dor, talvez vomitaria o fígado – sim ouvi falar que vomitam o fígado e vi que a língua dele tava vermelha e antes tinha algo avermelhado escorrido na boca. Além disso, a urina ficaria toda retida e ele ficaria ainda mais inchado do que ficou.
De certa forma foi uma ortonásia, a doença foi evoluindo mas forma feitos procedimentos que fizessem ele ficar mais confortável – remédio para dor, náuseas, laxantes… Medidas como entubação e hemodiálise não queríamos que ele passasse, já que seria mto sofrimento ai sim inútil.
A permanência no hospital evitou que ele sentisse tanta dor, apesar de que ele foi muito furado para fazer exames de sangue, e deu uma morte DIGNA e ele.
Que outros pacientes fora de possibilidade terapêuticas possam ter uma morte com DIGNIDADE também. Com um bom acompanhamento médico para diminuir o sofrimento.
Que a medicina pare de virar comércio e que os médicos ganhem salários compatíveis. Alguns médicos trabalham em vários locais e se matam de trabalhar porque se trabalhassem em um lugar só ganhariam pouco ou por ambição mesmo. Outros como ganham por consulta, fazem muitas num mesmo dia, de baixa qualidade, muitas vezes nem examina direito o paciente.
Que o governo invista mais em hospitais. Não havia vagas e meu pai mesmo com plano teve que ficar no pronto socorro misturado com outros tipos de doenças.
Que as pessoas tenham mais sensibilidade para com o sofrimento alheio. Afinal, quem garante que um dia não será a gente do outro lado, precisando da sensibilidade alheia?



